Chamado de “sisteminha”, o arranjo produtivo garante segurança alimentar e também está presente em outros municípios do Norte de Minas 

 

BELO HORIZONTE (15/9/2020) - Unir produção de peixes, hortaliças, frutas, milho, feijão, ovos, galinhas e outros pequenos animais para alimentar uma família de quatro pessoas e ainda comercializar o excedente. Esse é o objetivo de uma tecnologia de produção integrada de alimentos, batizada de “sisteminha”, adotada em vários municípios do Norte de Minas. Entre eles, Riacho dos Machados, um dos primeiros da região a implantar, em 2018, com sucesso, uma unidade demonstrativa do sistema.

A iniciativa tornou-se referência e acabou incentivando a criação de outros 14 projetos iguais no município.  E até o momento, um total de 15 famílias de agricultores locais foram beneficiadas.

Mas essa forma de produzir também já funciona em outros municípios da região mineira, tais como Mato Verde e Porteirinha, entre outros. “Hoje já temos muitos sisteminhas implantados aqui no Norte mineiro. Entre 30 e 35 deles, favorecendo o mesmo número de famílias”, calcula o gestor regional do Projeto Dom Helder Câmara, da Emater-MG em Janaúba, Arquimedes Batista Neves Teixeira. 

Segundo o gestor, 80% desses sistemas foram montados com recursos do Dom Helder Câmara, programa do governo federal que conta com a parceria da Emater-MG na assistência a pequenos agricultores do Semiárido. 

O extensionista agropecuário do escritório local da Emater-MG de Riacho dos Machados, Osmar Martins Campos, pontua as principais vantagens do sistema:  baixo custo de investimentos e a capacidade de adaptação. “Pode ser facilmente adaptado às necessidades das famílias rurais e ou urbanas que ocupam pequenos espaços. E gera uma solução dimensionada para atender as recomendações nutricionais de uma família de quatro pessoas”, afirma. 

 

 

Produção integrada

O sisteminha foi desenvolvido pela Embrapa, que focou na segurança e soberania alimentar de famílias do Nordeste brasileiro.  A principal atividade do sistema é a criação de peixes, em um tanque, com mecanismos de recirculação e filtragem. A água, que contém resíduos e nutrientes como, por exemplo, o nitrogênio liberado pela combinação de dejetos e restos da ração dos peixes, também é usada para molhar e adubar a horta, pomar ou pequenas lavouras.

Como se trata de um arranjo produtivo, o sisteminha pode ser adaptado às necessidades, experiências e escolhas do agricultor familiar e às condições dos solos e climas do lugar e do mercado local. “Não é uma tecnologia isolada, mas tem muitas possibilidades de combinações. O básico é a piscicultura e cada produtor adota os módulos de acordo com seu interesse e necessidade, otimizando o uso de água e adotando uma tecnologia simples”, informa o extensionista agropecuário da Emater-MG. Para Osmar, o importante é aliar produção de proteína animal da criação do peixe e cultivos de hortas, frutas e lavouras de milho, feijão, entre outras atividades, utilizando um manejo agroecológico.  “Tudo em pequenas áreas”, salienta. O baixo consumo de água do projeto é outro ganho para os beneficiários que o técnico chama atenção. Um fator relevante para municípios do Norte de Minas que, como Riacho dos Machados, estão localizados no semiárido mineiro, onde a escassez hídrica é um desafio enfrentado todo ano pelos moradores da região.

“Dentro de um tanque de nove mil litros, o produtor pode criar de 180 a 200 alevinos e em até 90 dias pode tirar para consumo alimentar ou deixar mais tempo, ganhando peso”, explica Arquimedes.  De acordo o técnico, os usuários retiram um terço da água a cada três dias para molhar as plantas e posteriormente, fazem a reposição do que foi tirado. 

Ainda segundo Osmar, uma das características do sistema é o rodizio ou escalonamento de produção, o uso da criatividade do produtor e a formação de multiplicadores. No escalonamento, o plantio é feito aos poucos. “Escalonamento significa, por exemplo, plantar hoje uma rua de milho, com 20 ou 10 covas e repetir com o feijão. Na outra semana, você planta de novo e assim sucessivamente, de tal maneira que esses alimentos nunca faltem na propriedade”, explica.

Sobre a criatividade, Martins disse que está relacionada ao que produtor vai escolher para plantar no seu espaço, seguindo sua aptidão e padrão de consumo alimentar. E a ideia é torná-lo um disseminador do projeto. “Eles têm hábitos e são multiplicadores da experiência. Querem receber visitas e sentem bem em mostrar o que estão fazendo”, diz.

Beneficiária satisfeita

A agricultora familiar Izabel Maria de Jesus Aguiar, 56, da Fazenda Baixa do Brejo, na zona rural de Riacho dos Machados, é uma das que foi contemplada pela política pública. Ela optou pelo cultivo de hortaliças e de bananas prata, mas tem planos de plantar também milho, mandioca e feijão, no período chuvoso, além de continuar com a criação de peixes.  “Está sendo muito bom pra nós. Sempre trabalhamos na roça, plantando cana, milho, criando galinha, porco e esse projeto é uma benção de Deus.  Vale a pena pra quem tem coragem e vontade de trabalhar”, afirma. 

Na propriedade, herança dos pais do marido Elton de Aguiar, Izabel e o único filho do casal, de 17 anos, dividem o território da fazenda com outros parentes. Em casas e espaços, delimitados de Baixa do Brejo, também moram dois irmãos e um sobrinho do esposo. Todos eles foram beneficiados com a implantação do sisteminha. 

O extensionista Osmar Martins destaca que mesmo o sisteminha sendo “idealizado na alimentação da família e não na comercialização”, nada impede que o projeto se torne também uma fonte de renda, se houver excedentes na produção. “É um programa de segurança alimentar adequado à uma pequena propriedade, mas se o produtor não consegue consumir, ele pode vender porque senão vai ter perdas”. Segundo o técnico, em Riacho dos Machados as famílias comercializam os alimentos que sobram, no mercado da cidade, nas feiras de sábado e terça-feira.

Parceria e destaque MelhorAção

A implantação do primeiro sisteminha de Riacho dos Machados foi fruto de parceria da Emater-MG, vinculada à Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), e a Embrapa Milho e Sorgo.  Já os projetos seguintes no município, inspirados na experiência pioneira da unidade demonstrativa, foram viabilizados, por meio de parceria da Emater-MG com o projeto Dom Helder Câmara, do governo federal.

Implantado em 2018, o Dom Helder Câmara beneficia 1.795 famílias em 57 municípios no Semiárido mineiro. Desse total, 1.650 famílias recebem ajuda financeira. As demais são beneficiadas com assistência técnica na implantação de uma atividade produtiva.

Sob o título de “Sisteminha: Produção Sustentável e Integrado de Alimentos”, a experiência do município de Riacho dos Machados é um dos trabalhos regionais da empresa de extensão rural agraciado pelo Prêmio MelhorAção de 2019. O concurso da Emater-MG elege os melhores destaques dos serviços no ano. O objetivo é valorizar seus funcionários e clientes.

 

Assessoria de Comunicação – Emater-MG

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Fotos: Divulgação Emater-MG

 

Publicado em: 15/09/2020



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