Divulgação pela internet e entrega a domicílio crescem pelo estado após dificuldade de comercialização por causa do coronavírus

 

BELO HORIZONTE (2/4/2020) - As redes sociais se tornaram grandes aliadas dos agricultores familiares para a divulgação e venda dos produtos, após o avanço do novo coronavirus no país.  Eles estão se adaptando à nova realidade para, além de cuidar da saúde, evitar prejuízos em suas atividades. Um exemplo vem de Viçosa, na Zona da Mata mineira. A feira Quintal Solidário, que conta com a participação de 30 produtores, foi suspensa para evitar aglomerações. A feira era antes realizada uma vez por semana na Seção Sindical dos Docentes da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e tinha um fluxo de 500 pessoas a cada edição, entre consumidores e expositores de hortifrutigranjeiros, da agroindústria familiar e de artesanato. 

“Levando em consideração as recomendações para manter o distanciamento entre pessoas e evitar aglomerações para garantir a segurança dos expositores e consumidores, vimos que seria difícil manter o Quintal Solidário. Mas muitos agricultores vivem graças ao rendimento nas feiras. Então construímos uma estratégia para criar o Quintal Solidário virtual”, explica a professora do departamento de Nutrição e Saúde da UFV e coordenadora de feira, Sílvia Eloiza Priore. 
 
Os agricultores providenciaram fotos de seus produtos, além das informações de preços e contatos para que os organizadores da feira pudessem fazer postagens nas redes sociais.  As vendas passaram a ser feitas por encomenda, com entrega na casa dos consumidores. 

O produtor Vítor Gomide aderiu à divulgação pelas redes sociais para entrega direta ao cliente. Acostumado a vender queijos e outros produtos lácteos em feiras e supermercados, ele viu a comercialização reduzir após a recomendação de que as pessoas ficassem em casa, e do fechamento de alguns pontos de venda. Além da divulgação pelas redes sociais do Quintal Solidário, o feirante também criou uma conta própria no Instagram.  “Minha irmã trabalhava num salão de beleza que fechou por causa do coronavírus. Como ela estava acostumada a lidar com redes sociais, sugeriu que a gente criasse uma conta para divulgar e vender nossos produtos”, diz o produtor.  

A fabricação dos produtos lácteos é feita pela manhã, com a ajuda da mãe. Durante a tarde, Vítor sai para fazer as entregas e conta que ainda está se adaptando ao novo modelo de venda. “Foi uma alternativa que encontramos para amenizar a situação.  Mas o resultado está até surpreendendo. Por enquanto, não cobramos taxa de entrega. E muitos consumidores estão pedindo que a gente continue com as entregas mesmo depois que esta situação melhorar”. 

A Emater-MG, vinculada à Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), está dando orientações aos agricultores diante desta nova realidade de comercialização. “Estamos pedindo atenção aos cuidados que eles devem ter neste momento. Tanto durante a produção na propriedade quanto na hora de fazer a entrega, no contato com os consumidores. Orientamos que os agricultores a não receber dinheiro. O pagamento deve ser feito preferencialmente por cartão de crédito ou transferência bancária, para diminuir o risco de contaminação”, explica a técnica da Emater-MG em Viçosa, Vera Lúcia Rodrigues Fialho. 


 

Feiras municipais

Apesar do funcionamento do Quintal Solidário ter sido suspenso em Viçosa, por causa do tamanho do local onde era realizado, as feiras municipais que ocorrem duas vezes por semana na cidade foram mantidas. Mas elas passaram por adaptações, conforme as recomendações estabelecidas pelo Governo de Minas Gerais. 

Todos os feirantes usam luvas, máscaras e toucas, fornecidas pela prefeitura. As barracas são montadas respeitando uma distância mínima de três metros entre elas. A prefeitura também forneceu álcool gel para higienização das mãos. E uma grade de proteção foi montada entre consumidores e as barracas para evitar que as pessoas toquem nos produtos.

Tapioca em Unaí 

Em Unaí, no Noroeste de Minas Gerais, uma produtora de tapioca também optou pela divulgação pelas redes sociais, com entrega a domicílio, depois que as feiras que ela participava foram suspensas por determinações de prevenção e combate ao coronavírus.

Mércia Melo, 53, trabalha como auxiliar na secretaria de uma escola estadual. Mas, a principal fonte de renda da casa é a venda de tapioca nas feiras da cidade. Segundo ela, esse dinheiro é fundamental para o sustento da família e para manter o filho na faculdade. “Ele estuda em outra cidade e temos que pagar aluguel, alimentação e a faculdade dele”, diz a produtora.

Mércia Melo comercializava as tapiocas, entre quarta e sexta-feira, em feirinhas de quatro bairros diferentes. No sábado, ela participava de uma feira no centro da cidade, e, no domingo, da feira do produtor. O fechamento temporário dos espaços de comercialização trouxe preocupação para ela e outros produtores. “Todo mundo está muito preocupado. Mas vamos confiar em Deus”, disse.

A solução encontrada pela produtora foi a entrega a domicílio. A ideia surgiu após demanda que recebeu dos próprios consumidores. “O pessoal começou a ligar. Então comecei a entregar as tapiocas em suas casas. Todo dia recebo pedidos, não é a mesma coisa que nas feiras, mas ajuda a diminuir o prejuízo”, explica Mércia.

Os contatos acontecem pelas redes sociais e celular. “As entregas são feitas pelo meu marido. Nós temos tomado todo o cuidado com a higienização das embalagens e também com a higienização pessoal. Esperamos que tudo passe logo. Mas o momento é de união e fé para vencer esse problema”, diz. 

A exemplo de outros participantes das feiras do município de Unaí, dona Mércia recebe orientações técnicas da Emater-MG. “Nós orientamos os produtores em diversos aspectos, como boas práticas de fabricação, embalagem e comercialização”, diz o gerente regional da Emater-MG em Unaí, Hector Barreto Leal. Com relação aos impactos do coronavírus no setor agropecuário da região, o gerente afirma que ainda é difícil de fazer qualquer estimativa.

 

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Publicado em: 02/04/2020



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